24 de dezembro de 2018

~ Concreto 2 minutos ~

        I
A face do mal
Dá-me azia
Fico com cólicas
Meu coração esvazia

A face do mal
Tenta me desviar
Venda meus olhos
Mas eu teimo em caminhar

A face do mal
Se faz minha amiga
Sorri para mim
E levanta intriga

A face do mal
Deseja meu bem
Eu agradeço
Mas olho com desdém

        II
A face do mal
Me deixa com pena
Desperdício de vida
De quem anda perdido

A face do mal
É negra de fel
Espalha infelicidade
Como se fosse mel

A face do mal
Dá-me tristeza
Ser humano perdido
Em dor e aspereza

A face do mal
É triste de se ver
Espetáculo deprimente
Dor personificada num ser

        III
A face do mal
Levanta poeira
Tenho dificuldade em ver
O que está à minha beira

A face do mal
Faz-me esquecer
Das coisas boas
Que quero sempre trazer

A face do mal
Queima minhas recordações
Oferece-me veneno
Como se fossem balões

        IV
A face do mal
Pertinho de mim
Contagia minh'alma
Tenta respirar por mim

A face do mal
Venda meus olhos
Deixa-me tonta
Esqueço mim própria

A face do mal
Segura a minha mão
Leva-me por tortos caminhos
Dizendo que são bons

Todos os dias

A face do mal
Me faz lembrar

O melhor do mundo
Sermos amados
E saber amar

[sem título ainda]

E, um dia...

Depois de quase uma vida inteira
Venho eu e prego-te uma rasteira

Essa vida inteira que não era tua
Caiu no chão
                    ... Nua

Estilhaçou-se
Com a facilidade das coisas que não são

Mil bocados de coisas
que não têm a cola do coração

E, eu aqui...

Cheiinha de medo,
Só porque te vi!

Logo eu, que não gosto
De partir um só prato

Depois de quase uma vida inteira
                    ... em silêncio

Aprendendo
                    ... sem saber

Como partir a louça toda !!

21-12-2018


~ A menina do café ~

A menina do café,
Vai lá todos os dias.

"Não passo sem café!"
Ela dizia.

A menina do café,
Fica apenas sentada.
Vendo as pessoas,
Observando.

Admirando a convicção
com que são ditos
os nomes dos produtos.

No outro dia distraiu-se
E ia levando
Com um cacete na cabeça.

O que ela mais gosta
São as pastelarias.

Doces e quentinhas.

Como as boas companhias.

~ Pastelaria Confiança ~
22-12-2018


~ Aquele lugar vazio ~

Ela vivia ao lado daquele lugar vazio, mas ela não sabia...

Igual ás coisas que existem, mas agente não sabe.
Igual ás coisas que não existem, queria ela dizer.

Ela sentia aquele espaço como um desconforto na alma.
Primeiro nem sabia o que era, depois reconheceu aquela porta e passou a vê-la todos os dias mas, ela permanecia fechada.
Então, passava os dias olhando para aquela porta, sonhando com o inimaginado.

... não chorou por a porta estar fechada.

Ficou feliz. Apenas por a ter reconhecido.

Apenas isso.

Não era preciso mais nada, porque a vida sabe o que faz.

E disso, ela tem a certeza.

~ Terminado no café ~
Sever do Vouga
22-12-2018


~ Mais do que saudade ~

Mais do que saudade
Que até é outra coisa qualquer
Este sentimento vivo
Que acompanha meu viver

É uma saudade
E uma falta
Do que não é
Mas devia ser

Porque era o que eu queria
Que meu viver nesse dia
Ia ser como sempre quis
Ia ser ainda mais feliz

~ Durante um concerto de  Ela Vaz ~
Sever do Vouga
29-09-2018


16 de dezembro de 2018

A Bruxa e a Puta

(...)
Bruxa: És uma puta!
És indigna, não prestas, não mereces nada, mereces que te cuspam em cima... Bem, na verdade até te cospem em cima. Os homens cospem-te em cima, mas não com saliva...

PUTA!

És um objeto de divertimento, é isso que tu és. Serves apenas para brincar e para distrair...
Nunca passarás de um objeto.

Eu sou superior, sou fina, eu tenho pedigree, percebes! Tenho classe, tenho categoria, a minha família é respeitada, admirada e nós temos. Percebes? A minha família é o mais importante. Os meus filhos são o mais importante. Tu sabes como são os homens! E, uma mulher tem que fazer sacrifícios pela sua família. Não é?

Puta: Tenho pena de ti! Tenho mais pena de ti do que de mim.

Nunca tive oportunidades para nada na vida. Nunca ninguém me deu a mão. Fui parida e largada no mundo, não sem antes levar um piparote no cu!
Já passei por situações inimagináveis na minha vida: de dificuldade, dor, sofrimento, e ainda passo...
Não tenho condições para fazer muito melhor do que isto, não sei...

Ás vezes ponho-me a imaginar que alguém me salva. Esse é o meu maior sonho.
Sonho com o amor, porque o amor pode tudo. O amor pode tudo, por isso eu sonho com o amor.
Só o amor me salvará e como eu sei que o amor existe, fico a sonhar que ele, um dia, quem sabe, bate á minha porta. Sabes, bruxa! O amor...

O amor é o que há de melhor neste mundo. Amar e ser amada. Isso é o melhor de tudo. De tudo!

E tu por seres bruxa desconheces o amor, porque quem é bruxa não sabe o que é o amor, por isso eu tenho pena de ti. Tu não sabes qual é a coisa melhor da vida. Tenho muita pena de ti.

Quem tem amor tem tudo, quem não tem amor não tem nada.

Bruxa: Tu sabes que o meu marido é um homem de muitas responsabilidades. Ele tem muitas responsabilidades, percebes, e sabes que... Enfim, tu sabes como as coisas são. E sabes como são os homens. Portanto acho que deves cumprir o teu papel. Se ele quer, tu tens que... percebes! Também, fora daqui, ninguém precisa de saber.
Opá ele engraçou contigo! O que é que eu posso fazer?
O que me havia de acontecer...

Puta: Eu acho que o teu marido sabe o que é o amor, mas não é de admirar tu desconheceres esse facto, já que, está visto, tu desconheces, também, o próprio marido que tens...

Acho, não! Eu tenho a certeza que o teu marido sabe o que é o amor. Deu para perceber, naquele dia em que...

Aliás, o amor que habita dentro de mim já vislumbrou o amor que habita dentro dele... o amor se reconhece, fala a mesma linguagem, tem a mesma cor, tem o mesmo som, tem a mesma vontade, tem o mesmo desejo, tem o mesmo tesão, tem a mesma vontade de abraçar, tem a mesma vontade de possuir, tem a mesma vontade de partilhar, tem a mesma vontade de estar junto, tem a mesma vontade de fazer junto, tem a mesma vontade de ser...

O amor, o que eu sonho com o amor...

Bruxa: Olha rapariga, tens que aguentar! Sabes como é...

Puta: O amor é tudo!


Sever do Vouga, 16 de Dezembro de 2018


9 de dezembro de 2018

Menina

          I
Menina do cabelo azul
Essa cor da tualma
Mostras tua cor ao mundo
Pintando de céu mais alto

Menina fizeste um piercing?
Gesto de indignação? Enfeite?
Na dor, deleite?
No ser humano cabe tudo isso?

Menina e essa tatuagem?
Não vês que assim ficas à margem?
Sentada nesse quieto banquinho
Fazes do horizonte longínquo tua miragem

          II
Menina não rias tão alto
Nem rias quando te apetece
Não vês que é impróprio

Não sei...

Talvez desrespeito por quem padece

Menina, menina
Faz o que te estou dizendo!
Não vês que cá ando,
que tu, há muito mais tempo?

Menina, menina !
Vai por esta estrada!
Menina, menina!
Faz assim, faz assado!

Meninaaaaaaaa! (grito)
Por onde vais? (grito)
Esse caminho é desconhecido! (grito)
Não vês? Vê lá se cais! (grito)

(longo silêncio)

Sever do Vouga, 9 de Dezembro de 2018