1 de junho de 2015

No parque infantil

Em homenagem ao Dia da Criança, inauguro uma nova categoria neste meu espaço.
Como sempre, espero que apreciem, desta vez deixo-vos uma crónica.

Imagem daqui

     Ela levou, mais uma vez, a filha ao parque infantil. Ela gosta de ir lá porque, assim, ela também vai ao parque infantil. Ela não é mãe solteira, mas é como se fosse...a separação, tal como todas as separações, foi, e ainda é, bastante difícil.
     Já tinham passado quase dois anos desde que ela deixara o pai da sua filha e, desde essa época que ela resistia a qualquer interacção suspeita de se configurar numa troca amorosa, for ela de que tipo for; no entanto, de vez em quando arriscava-se e permitia-se a "micar" determinadas figuras masculinas que, por alguma razão, mexiam com ela.
   
     Nesse dia, lá pelas suas 15 horas, entrou parque adentro um rapaz com uma criança de 5 ou 6 anos. O garotinho, mal entrou - claro! - correu logo, desenfreado, para o seu brinquedo preferido: um combinado de dois escorregas com túnel e, seu jovem pai, enquanto acendia um cigarro, acorria ao local para se certificar de que o seu rebento não se iria machucar com alguma acrobacia mais arrojada. Quando ela o viu, sentiu, desde logo, algum interesse. Ele era giro, mas creio que não foi essa a característica principal que a levou a interessar-se.
     
     A tarde seguia pacata e algo inquieta, porque ela, bem camuflada atrás dos seus óculos escuros, fazia figas para que se proporcionasse uma daquelas conversas de ocasião desinteressadas e, a coisa deu-se quando os dois petizes resolveram andar no par de baloiços existente. Ele e ela sentaram-se no muro, mesmo atrás e, naturalmente, a conversa surgiu, mas ela nem perguntou do garoto, era óbvio que ele era filho. Enquanto falavam das excelentes condições daquele parque ela era assaltada por uma questão, muito importante para ela naquele momento: a idade dele. Inevitavelmente ela começou a fazer contas de cabeça: 
- Ora bem, ele terá trinta e poucos, ainda não tem trinta e cinco, muito embora também pudesse ter vinte e cinco, passava perfeitamente por vinte e cinco, mas vinte e cinco não, com um filho daquela idade, dificilmente os terá...deve ser mais para os trinta e poucos, exactamente, deve ser pela minha idade, um pouco menos, talvez - concluiu, logo após a curta e simples conversa entre os dois.

     Ainda não tinha passado uma hora quando pai e filho foram embora.
- Vamos Vitinho! Vamos embora, que hoje tens karaté! - disse-lhe o pai, enquanto esfumaçava mais outro cigarro.
Em jeito de despedida, daquele que lhe fizera subir a pulsação, ela foi-o seguindo, com o olhar, até os dois entrarem no carro e, foi neste momento preciso que o seu interesse, por ele, subiu exponencialmente.
O carro...bem! O carro impressionava qualquer ser humano, por mais imaterialista empedernido que fosse: belas linhas de engenharia alemã, alta cilindrada, cor gira, grande, enorme mesmo.
- Uau!! Imperdível! Ainda por cima endinheirado! Sim, porque só quem é bastante endinheirado é que pode ter um veículo automóvel de tal categoria - ela ia encaixando as peças todas, enquanto o seu cérebro libertava doses generosas de serotonina.
- Um jovem pai, responsável, maduro, giro, atraente, tudo de bom; quem sabe um executivo, inteligente, rico, bem sucedido; com sorte, se lhe conseguisse cheirar o pescoço, reconheceria de imediato aquele odor a Eternity da Calvin Klein e sentiria aquela barba, de um dia, a raspar no meu rosto... - ela não parava, porque ele era o homem perfeito capaz de preencher toda a sua fantasia e carência.

     Mas havia um senão...Um item que a intrigava, algo que lhe escapava e que ela não conseguia encaixar - a forma como ele estava vestido. A ideia que lhe dava era que, ultimamente, ele não teria ido muito às compras: quer pelo erro nos tamanhos, quer pela inadequação da sua indumentária com a sua condição de bem-sucedido e bem-talhado. 
Neste momento sua imaginação voa, voa longe, tão longe que encosta a um canto qualquer vôo de longo curso da TAP: algures numa ilha paradisíaca, da sua imaginação, ela e sua melhor amiga tomam uma bebida exótica, com chapelinho, frutas e flores; pés descalços e areia branca, olhos docemente perdidos no azul do mar e do céu; no ar circula uma temperada e doce brisa que apenas é perturbada pela perplexidade com que ela lhe descreve a roupa do rapaz:
- ...jeans muito justos a apertar na cintura convenientemente posicionada abaixo da pequena barriguita, ligeiramente proeminente e, deixando, também, aquele "bumbum gostoso" bem à vista; sapatilhas de pano, mas de marca, com a "língua" bem puxada para cima tipo "à jovem", mas dando aquela impressão de que as costuras estão prestes a rebentar, porque era necessário um tamanho acima; sweatshirt a combinar, mas tenho a certeza de que se erguesse os braços deixaria, pelo menos, um palmo da tal barriguita, exposta - acabou de falar e tinha um ponto de interrogação na testa...

     Tudo isto conduzia a fértil imaginação dela a um ponto crucial, de suma importância mesmo; conduzia-a à cereja no topo do bolo, o santo graal da existência - O TIPO NÃO TEM GAJA! (gaja que é gaja monitoriza o style do seu Adónis, certo?)
De repente o cérebro dela ficou todo ocupado com esta ideia e ela teve uma epifânia, abriu-se a via verde para a auto-estrada de acesso à felicidade e, no seu corpo, a adrenalina circulava a alta velocidade, num confortável e luxuoso carro de alta cilindrada. Ela era uma mulher feliz.

     Já na fase da depressão eufórica, a sua mente continuava a fervilhar:
- Eu já desconfiava que ele era divorciado, mas agora tenho a certeza! Além do mais aquele consumo desenfreado de cigarros é a prova de que ele anda stressado, muito stressado. E a maneira como me falou? A forma desencantada com que articulava as palavras demonstra que, decididamente, está desiludido com as mulheres. Sim, porque, modéstia à parte, eu sei que sou muito atraente.
Para mim aquele stress todo vem só de um sítio: a "ex", aposto que lhe faz a vida num inferno...um filho em comum é um filho em comum. Como eu sei disso! - suspirou ao mesmo tempo que sentia aquela pontada de compaixão por aquele ser humano, fosse ele quem fosse.

- Eu tenho que ver este Adónis de novo! - pensava ela tantas vezes.
Infelizmente, o máximo que ela conseguia era ver o carro a passar na estrada, duas ou três vezes por semana - nas suas discretas e desinteressadas diligências ela descobriu os horários em que ele passava em determinada direcção - e, de facto, ele, efectivamente estaria dentro do carro, mas ainda assim, pairava uma dúvida, porque ela não o conseguia enxergar, imagine-se que, para coroar toda aquela aura de inacessibilidade (pelo menos, para ela) o dito carro tinha vidros fumados.

Por momentos, o cenário idílico voltou e, com ele, a melhor amiga também: as duas estão a rir à gargalhada, enquanto rebenta uma onda na praia e se levanta uma revoada de gaivotas ao pô-do-sol.
- Deve ser para combinar com os pulmões do dono! - tinha dito ela dois minutos antes.
- Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! - riem as duas em uníssono.
...

     Um belo dia, passados dois meses e pouco, ela saiu à noite com uma amiga e foram a um bar, depois de umas minis ela confessou-se:
- Eh pá! Ando a micar um tipo assim e assim, lá de tal sítio. Não o conheço, vejo-o pouco, mas ele tem tal carro.
- Eh pá! Ligo já ao Barbosa, ele é de lá e conhece toda a gente. Vais ver! Vamos descobrir quem ele é - garantiu-lhe a amiga.

Depois de alguma tentativa e erro lá chegaram ao tipo.
Primeiro: nome.
- E o garoto? - Ah! O garoto é irmão dele, parece que veio tardiamente.
Arrefeceu...
Idade? 1989...
Ok, 26 anos... Hum!
Gelou...

Resolvido o enigma.

Hoje, quando ela viu o carro a passar na estrada, já não lhe pareceu ser tão grande como das outras vezes.

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