17 de abril de 2015

Abstrato 2 minutos

Fazes-me mossa

fazes-me uma mossa
igual à serra da estrela
profunda e gelada

fico parada
engulo em seco
e lembro-me do contrário
a felicidade
anseio por ela de novo
a minha bitola

fico nesta equação
sem solução
minha mão tremelica
tenho um achaque

dá-me dor de cabeça
meu pé tropeça
cai-me tudo ao chão

depois
vem a calmaria
estou numa pradaria
com cheiro de verão

searas douradas
sorriso aberto
a certeza da vida
tudo tem solução

engreno de novo
volto à minha condição
procuro procuro
sempre com alegria na mão

sobe-me uma coisa
e fico feliz
meu depósito está cheio
vou daqui até Paris

Cristina, 17 de Abril de 2015

"Há sempre pessoas prontas a entrar na nossa vida,
mas se não estivermos preparados para as receber,
elas não vão ficar"_Carolina Torres

14 de abril de 2015

O naúfrago

Imagem daqui

Dizes que encontraste a poesia,
mas não sabes o que fazer com ela.

Dás-me vontade de rir.

Ah! Como me pareces tão coitadinho!

Pareces-me tão coitadinho,
Que me fazes lembrar
As minhas próprias palavras,
De tão coitadinhas que são.

És um náufrago!

És um náufrago à deriva em alto-mar
Segurando-se apenas num destroço de madeira,
Mas julgando nele uma ilha.

Permite que te desengane,
Meu querido amigo.

Se tu, porventura, de verdade...

Sentisses o veludo de seu abraço,
Cheirasses seu hálito de jasmim,
Visses a alegria do seu sorriso,
E a olhasses nos olhos, de verdade.

Ficarias  tão enamorado,
Tão perdidamente apaixonado,
Que não haveria nada a fazer.

Cristina, 26 de Março de 2015

"A escrita é uma forma de terapia"_Carlão

2 de abril de 2015

A comandante

Sou a comandante d'um navio
Navego no mar e na escuridão
Junto com toda a tripulação
Sou a comandante d'um navio

Minha mão firme segura o leme
Meu olho fixo na escuridão
Minhas pernas "bambas" de medo
Olho p'ró céu faço minha oração

Agora vou do meu navio falar
Muitos apetrechos tem ele
O primeiro é a bandeira
Depois a caldeira que o faz andar

A bandeira nem sabia que lá estava
O combustível é doação
Tenho sorte por ter bons amigos
Entre a minha tripulação

Já há muito que navego
Sem em nenhum porto atracar
Até parece que não tem fim
Este oceano este mar

Tenho passado por algumas ilhotas
E minha âncora não lanço
Meus conselheiros asseguram
Não são lugares de confiança

Sou comandante sou tripulação
E até ratos trago no porão
Navego no mar e na escuridão
Junto com toda a tripulação

Do porto que deixei
Já não tenho lembrança
Resta-me uma espécie de confiança
Resta-me uma espécie de esperança

Que sentido este navio
O que é este mar
Porquê só escuridão
Bem sei, tenho que navegar

Afinal de contas...

Sou a comandante d'um navio
Só sei navegar no mar e na escuridão
Apenas me resta segurar no leme
Bem firme com a minha mão

Cristina, 25 de Novembro de 2014

23 de março de 2015

Desespero

Imagem do google

Não sei se no meio desta confusão
Serei capaz de ouvir a mim mesma.
Diálogos, diálogos...Uma constante conversação.
Eu estou no meio de uma multidão.

E tudo é triste e tudo é dor, esta impregnação;
Permeia o ar, permeia a construção.
Esta casa é uma desolação!         (grito)
Mas é aqui a minha habitação!    (grito)

E eu agradeço a cada estação
O que eu recebo por doação:
Alimento, calor, protecção...    (murmúrio)
Esta é a minha habitação...       (murmúrio)

É daqui que eu venho
E é aqui que eu estou,
Mas não é aqui que eu sou.
Eu não sou onde estou.

Ou, então, é apenas uma confusão
Estou meio surda, meio tonta,
Uma espécie de desorientação.
Alguém diz: -Uma alucinação!   (outra voz)

Tenho um enjôo, tenho uma náusea,
Tudo não tem solução!         (voz definitiva)
São portas fechadas...Uma confinação!
É o que eu sinto, quando meu pé está neste chão.

Mas eu tenho uma porta aberta   (Ufa! E eu agradeço tanto, tanto, tanto...)
E por ela entra muita "coisa boa"
Que me aquece o coração:
Uma verdade, um alento, uma consolação.

Alimenta uma esperança no coração,
Aquece uma certa felicidade sem explicação.
Protege a minha vela acesa
E garante a minha iluminação.

Cristina, 4 de Fevereiro de 2015

"Nunca mais vou bater no fundo"_Jéssica Athayde

"Quem te dá uma serpente quando pedes um peixe, talvez não tenha senão serpentes para dar. É, então, uma generosidade de sua parte"_Gibran Kahlil Gibran do livro "Areia e Espuma", Aforismos Selecionados


10 de março de 2015

Sentimento

Se o vento soprasse,
com tal força,
em tua vida.

Ficarias incrédulo
com a quantidade de construções
que cairiam.

Se a chuva alagasse
e destruísse
teus terrenos de cultivo.

Ficarias muito admirado
com o que sobraria
para te alimentar.

Se a neve gelasse
e a aridez se instalasse
em tuas serras e vales.

Ficarias sem palavras
com o que acontece
na primavera.

E depois...
No dia em que uma suave brisa
amena e perfumada
te inebriasse os sentidos

E...
O sol, raiasse no céu,
esplendoroso.

Aí...
Eu ficaria sem palavras
para te falar de felicidade.

Cristina, 9 de Março de 2015 

"No inverno os ramos nus,
que parecem dormir,
trabalham em segredo
preparando-se para a primavera."
Rumi

27 de fevereiro de 2015

Poesia Objectiva

Imagem daqui













Meu querido amigo
vou contigo partilhar
algo de muito concreto
Uma ideia, um conceito,
que aflora em meu intelecto

Hoje de manhã
Quando por certa árvore passava
Comecei a pensar nos pintores
A inveja que deles tenho!
Pus-me a imaginar
A fonte d'onde eles bebem
E a imaginação logo se calou
Porque ficou sem palavras
É que eles imaginam com cores
Não imaginam com palavras
É por isso que eu tenho inveja deles
Imaginar com cores é coisa de pintores
Eu só sei imaginar com palavras

As palavras coitadinhas
têm princípio, meio e fim
Já as cores...
As cores são infinitas
Ai como eu invejo os pintores!

Só os pintores sabem...
...escrever com palavras infinitas

Por isso, te digo
Meu querido amigo
Eu, com as minhas palavras concretas,
Que mais parecem objectos,
Só posso te dizer o que conseguir escrever.

Cristina

15 de fevereiro de 2015

A Praia

Ao passear por este local, consigo perceber
Que por aqui passou uma tempestade.
Para ser mais precisa: um furacão
Que arrancou tudo à sua passagem.

A destruição é de total grandeza
Que há pedaços vividos, mas não sentidos;
Que ficam boiando nas águas, ainda agitadas,
De um mar que ainda não reconhece a sua praia.

A destruição é de total grandeza
Que a sujidade impregna a paisagem
E para onde quer que se olhe só se vê dor.
Sim, porque dói ver a beleza destruída!

Até as nuvens densas e pesadas no céu
Insistem em tapar o sol esplendoroso
Que anuncia a harmonia do porvir,
Depois d'uma destruição de total grandeza.

Cristina, 27 de Março de 2014